O crime provocado pela exploração de sal-gema em Maceió pela Braskem permanece, oito anos após sua eclosão, como um processo ainda em curso de desestruturação social, expulsão de comunidades e disputa por reconhecimento de direitos. Mesmo após a expulsão de bairros inteiros e a implementação de programas de compensação, persistem entraves que revelam os limites das medidas de reparação adotadas até agora. As barreiras para o reconhecimento de áreas consideradas “bordas” do mapa de risco e a ausência de ações estruturais voltadas à reconstrução dos modos de vida destruídos pela mineração continuam sendo questões centrais.

Nas áreas que margeiam a Lagoa Mundaú, esses impasses se tornam ainda mais evidentes. Comunidades historicamente ligadas à pesca artesanal e à mariscagem tiveram suas condições de trabalho e de reprodução da vida profundamente afetadas. O ilhamento socioeconômico passou a fazer parte do cotidiano de muitas famílias, sobretudo daquelas que ficaram fora das zonas inicialmente reconhecidas para a chamada “realocação”.

De acordo com Juliane Veríssimo, cientista social e pesquisadora dos impactos do conflito socioambiental provocado pela Braskem em Maceió, as mulheres estão entre as populações mais afetadas. Muitas exerciam atividades diretamente vinculadas à Lagoa Mundaú, como mariscagem, limpeza do pescado e comercialização em pequena escala, práticas que garantiam renda, autonomia econômica e sustentavam a vida comunitária. Com a proibição da pesca em áreas estratégicas e a escassez do sururu, parte significativa dessas mulheres passou a depender de benefícios sociais ou de trabalhos informais, sem reconhecimento institucional como população afetada.

Foto: Zazo

Estudos recentes sobre o desastre provocado pela Braskem em Maceió indicam que o deslocamento forçado e a impossibilidade de retomar a vida cotidiana expõem moradores a um estado prolongado de estresse e incerteza, associado ao aumento significativo de transtornos como ansiedade, depressão e sofrimento psíquico contínuo. De acordo com a pesquisa Desastre da Mineração em Maceió-AL: Avaliando o Impacto na Saúde dos Atingidos (2025), realizada com 170 participantes, dos quais 70% eram mulheres, esse quadro não se restringe à saúde mental, com repercussões diretas sobre a saúde física, como maior incidência de hipertensão arterial e agravamento de doenças crônicas preexistentes. A aplicação da escala DASS-21 identificou prevalências elevadas de sofrimento psíquico entre a população afetada, com 59,41% dos participantes apresentando níveis de estresse acima do normal, 53,53% com níveis elevados de ansiedade, índice que alcança 76,9% nos relatos qualitativos, e 62,35% com sintomas de depressão em patamares superiores aos observados em populações de referência.

Foto: Zazo

O estudo também apontou associação estatisticamente significativa entre sofrimento psíquico e diagnóstico de hipertensão arterial, além de registrar uso recorrente de medicação psiquiátrica, episódios de crises de pânico e redução significativa da qualidade de vida após o deslocamento territorial, indicando impactos estruturais e duradouros sobre os perfis de morbidade e mortalidade das populações afetadas. A pesquisa dialoga ainda com evidências produzidas nos desastres de Mariana e Brumadinho, nos quais todos os sintomas psiquiátricos investigados apresentaram maior prevalência entre mulheres, reforçando a hipótese de maior vulnerabilidade feminina em contextos de desastres minerários. Nesse cenário, episódios como o suicídio de Dona Pureza, moradora do Flexal, no final de outubro de 2024, evidenciam a gravidade da crise humanitária vivida por parte da população afetada.

Nesse contexto, os relatos das mulheres afetadas revelam as múltiplas camadas de violência territorial produzidas pelo crime socioambiental.

As mulheres estão entre as mais afetadas pela cadeia de exploração e pelos crimes socioambientais associados à mineração, sobretudo aquelas que sustentam seus modos de vida a partir do território, como produtoras rurais, marisqueiras e trabalhadoras dos campos, das águas e das florestas. A perda das moradias, das fontes de renda e das redes comunitárias de cuidado compromete não apenas a subsistência material, mas também a saúde física e emocional dessas populações, aprofundando processos de empobrecimento e deslocamento forçado. Os relatos das mulheres afetadas configuram um retrato das múltiplas camadas de violência territorial produzidas por esse crime socioambiental, evidenciando como a expulsão, o adoecimento e a precarização das condições de vida incidem de forma desproporcional sobre aquelas historicamente responsáveis pela sustentação das redes de cuidado e subsistência comunitária. No contexto do desastre provocado pela Braskem em Maceió, essa realidade se expressa de forma concreta na trajetória de Glauciane Oliveira, cuja história evidencia como a ruptura territorial atinge diretamente as mulheres e suas famílias, desestruturando vínculos, trajetórias de vida e condições de permanência no lugar.

Glauciane relata que há seis anos vem sendo afetada pelo crime socioambiental provocado pela Braskem em Maceió. “Minha mãe precisou sair de perto da minha casa, assim como outros familiares. No começo, muita gente achava que ia conseguir uma indenização justa, mas não foi o que aconteceu”, afirma. De acordo com a ex-moradora e militante do MAM em Alagoas, o valor recebido não permitiu que a mãe permanecesse próxima da família, provocando isolamento e agravamento do seu estado de saúde. A idosa precisou se mudar para outro estado, onde conseguiu adquirir apenas uma casa antiga. “Foi uma mudança muito difícil. Ficou longe das filhas, entrou em depressão e depois surgiram outras complicações de saúde. Acabou falecendo”, relata.

Sobre a própria condição de saúde, Glauciane afirma que também sofreu impactos diretos após o deslocamento familiar. “Em 2021 tive uma depressão profunda. Sofri muito com a separação da família e com a perda do convívio que tínhamos antes. A nossa rua era praticamente formada só por parentes, tias, irmãs, primas. Essa rede de apoio foi desfeita com a saída das famílias”, conta. O rompimento desses vínculos comunitários, segundo ela, agravou o sofrimento emocional vivido após o crime socioambiental.

Fernanda dos Santos, ex-moradora do bairro do Pinheiro, relata os impactos do crime sobre sua vida, sua família e sua saúde. Última integrante da família a deixar o bairro, ela afirma que perdeu a casa construída com anos de esforço, teve sua rede de convivência desestruturada e enfrentou um processo de negociação marcado por sofrimento e desvalorização do imóvel. O deslocamento forçado, segundo Fernanda, resultou na perda da autonomia habitacional e em consequências emocionais e físicas que persistem até hoje.

“Quando eu morava no Pinheiro, tinha todo um círculo de amizades e familiares por perto. Morava minha mãe, minha tia, meus irmãos, todos próximos. Fomos diretamente afetados pelo crime da Braskem. Eu fui a última a sair do bairro e precisei abrir mão de uma casa pela qual lutei muito para conquistar, onde vivia com meus três filhos e meu gato. Saímos com muita tristeza e dor.”

“Passamos por um processo muito difícil de negociação, com valores sempre nivelados por baixo. Depois de muita luta, recebi uma indenização irrisória, insuficiente para comprar outra casa no mesmo padrão. Hoje moro com minha mãe e sigo sem moradia própria. Já são oito anos de sofrimento e pressão contínua.”

Mesmo após deixar o bairro, Fernanda afirma que continua acompanhando a situação de outras comunidades afetadas e denuncia a permanência de violações nos territórios que seguem expostos aos impactos do crime socioambiental.

“Mesmo fora do Pinheiro, continuo denunciando o que aconteceu, porque ainda existem muitas pessoas expostas ao isolamento e à destruição dos seus bairros, como acontece nos Flexais. É um processo injusto, sem perspectiva de futuro para quem permanece.”

Ela também relata que os efeitos do deslocamento e do prolongado processo de insegurança e sofrimento repercutiram diretamente em sua saúde, produzindo impactos que ultrapassam a perda material da moradia.

“Enquanto mulher, sinto o peso de tudo isso. Ao longo desse processo descobri um câncer. Fiz investigação genética e não houve explicação hereditária. Eu coloco essa doença na conta da Braskem, como consequência do sofrimento e da injustiça. Consegui fazer cirurgia e sigo em acompanhamento, mas é mais uma marca desse crime na minha vida.”

Fernanda afirma que continua mobilizada como cidadã e pessoa afetada, defendendo que a luta por reparação integral segue necessária diante de “oito anos de injustiça, sofrimento e impunidade”.

Oito anos após o início do crime socioambiental, a mobilizaçãodas mulheres afetadas permanece como um dos principais eixos de denúncia e organização coletiva nos territórios afetados.

Durante o mês de março, marco dos oito anos do crime socioambiental provocado pela Braskem em Maceió e período histórico de mobilização das mulheres, o Movimento pela Soberania Popular na Mineração, em parceria com organizações populares, coletivos territoriais e movimentos sociais, realizou uma agenda de atividades voltadas à denúncia dos impactos persistentes da mineração de sal-gema e ao fortalecimento da luta por reparação integral, direito à moradia e justiça territorial. A programação reuniu moradores e moradoras afetadas, pescadoras, marisqueiras e lideranças comunitárias em espaços de escuta e articulação política sobre os efeitos prolongados do deslocamento forçado, o agravamento da saúde mental, a interrupção dos modos de vida tradicionais e as dificuldades enfrentadas por famílias que permanecem em áreas marcadas pela instabilidade do solo e pela ausência de soluções definitivas.

Entre as atividades realizadas, ocorreu o encontro “Saúde mental em colapso: 8 anos de crime”, no bairro do Bom Parto, dedicado à discussão dos impactos psicossociais acumulados ao longo dos anos de insegurança e ruptura das redes comunitárias. Já no dia 7 de março, foi realizado um ato nos Flexais em memória das vítimas do crime socioambiental, reunindo moradores, pescadores e marisqueiras em defesa da permanência digna no território, da realocação justa das famílias afetadas e da reconstrução dos projetos de vida interrompidos. A atividade reafirmou que o tremor registrado em 3 de março de 2018, frequentemente apontado como marco público da crise, representa apenas a expressão mais visível de um processo histórico mais amplo de exploração predatória e violação de direitos.

Entre os dias 23 e 27 de março, o Conselho Nacional de Direitos Humanos realizou uma missão em Maceió para apurar violações relacionadas ao caso. A agenda incluiu atividades nos bairros Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e Farol, principalmente nas áreas do Bom Parto e dos Flexais, territórios afetados por deslocamentos forçados, perda de moradias e restrições ao direito à cidade. A missão contou com a participação do MAM, da Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares, da Defensoria Pública do Estado de Alagoas e da Ordem dos Advogados do Brasil – Comissão de Direitos Humanos, realizando escutas territoriais no Bom Parto e nos Flexais, que culminou na audiência pública realizada no dia 27 a tarde no bairro do Bom Parto, com o objetivo de documentar violações de direitos humanos e subsidiar recomendações voltadas à reparação integral dos danos sociais, territoriais, ambientais e econômicos, com atenção especial aos efeitos sobre a saúde mental, à recomposição dos modos de vida interrompidos e às condições dignas de realocação das famílias afetadas.

Juliane Verissimo – Formada em Ciências Sociais, tem mestrado em Sociologia pela UFAL e atualmente é doutoranda em Sociologia na UFPE. Mora em Maceió e estuda o conflito ambiental causado pela Braskem desde 2022.

Mayra Souza – Comunicadora popular, Coletivo Nacional de Comunicação do MAM

 

Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM)