Por Larissa Rabelo Nunes – Coletivo de comunicação do MAM-MG

A região do Sul de Minas Gerais, especialmente os municípios de Caldas, Poços de Caldas e Andradas, está diante de mais um ciclo de avanço da mineração. O foco são as chamadas “terras raras”, elementos estratégicos para tecnologias como baterias, energia eólica e equipamentos eletrônicos, mas também fundamentais para a indústria bélica e sistemas militares. Em um cenário de disputa global por esses recursos, potências como os Estados Unidos e países da União Europeia ampliam seu interesse e pressão sobre países como o Brasil, reforçando um modelo em que riquezas naturais são colocadas à disposição do mercado internacional. 

Crédito: Chico Sales

Localizada sobre o Complexo Alcalino de Poços de Caldas, um antigo planalto de origem vulcânica e uma das formações hidrogeológicas mais ricas do país, a região passou a atrair o interesse de empresas mineradoras e projetos de exploração em larga escala. Iniciativas como o Projeto Caldeira [da empresa australiana Meteoric] e o Projeto Colossus [da empresa australiana Viridis], e o avanço do mapeamento mineral em grandes extensões de terra indicam que o território pode se tornar um novo pólo de extração desses minerais.

Mas, por trás do discurso de desenvolvimento e inovação, o que se desenha é um cenário já conhecido.

Promessas de futuro, impactos imediatos

“As chamadas ‘terras raras’, frequentemente apresentadas como minerais do futuro, vêm sendo utilizadas para sustentar uma narrativa de progresso ancorada no discurso da transição energética. Esse discurso coloca a exploração desses minerais como uma necessidade incontornável para superar as matrizes baseadas em combustíveis fósseis, como petróleo, gás e carvão. No entanto, por trás dessa ideia de sustentabilidade, o que se evidencia são interesses pouco comprometidos com uma transição energética justa e muito mais voltados à expansão do consumo energético exigido por tecnologias digitais, como data centers, e também por tecnologias de defesa, a exemplo de mísseis intercontinentais e submarinos autoguiados, que demandam grandes quantidades desses elementos.

Além disso, a chamada ‘mineração sustentável’ acaba por ocultar a continuidade de um modelo extrativo histórico, marcado pela concentração de riqueza, pela pressão sobre os territórios e por impactos sociais e ambientais duradouros”, afirma Nathália Francisco, militante do MAM.

A atividade minerária envolve riscos significativos, especialmente para os recursos hídricos e o equilíbrio ambiental. Na região, essas preocupações se intensificam devido ao histórico de mineração de urânio, que deixou marcas profundas para as comunidades locais, envolvendo riscos radioativos e passivos ambientais que perduram décadas após o encerramento da mineração levantando a alertas sobre possíveis contaminações e passivos ambientais.

Crédito: Chico Sales

 

O Projeto Caldeira, previsto para ocorrer na Zona de Amortecimento da Área de Proteção da Pedra Branca e próximo às estruturas da INB (onde estão dispostas cerca de 12 milhões de toneladas de rejeito radioativo, em processo de descomissionamento).Comunidades locais, especialmente em áreas rurais, podem ser diretamente afetadas pela expansão da mineração, com mudanças no uso da terra, ameaça aos modos de vida e insegurança sobre o futuro.

Já o Projeto Colossus, tem sua Área Diretamente Afetada (ADA) prevista para ocorrer num raio de menos de 1 km da Zona Sul de Poços de Caldas, região urbana consolidada, densamente povoada, abrigando cerca de 60 mil pessoas. Áreas de cavas, de pilhas de rejeito e a Unidade de Tratamento de Minério, estão localizadas a menos de 300 metros de distância das moradias de um Conjunto Habitacional, menos de 500 metros de um hospital de referência para a comunidade local, e menos de 1 km de creches, escolas, centros de atendimento para idosos, configurando um cenário em que milhares de pessoas terão suas vidas transformadas pelos impactos sociais e ambientais ocasionados pela proximidade com a área de mineração. 

Território em disputa

O avanço dos projetos de terras raras não ocorre isoladamente. Ele está inserido em uma disputa mais ampla, que envolve interesses econômicos, pressão internacional e debates políticos sobre o controle desses recursos estratégicos.

 

Propostas de criação de reservas nacionais e a entrada de empresas estrangeiras evidenciam que o Sul de Minas passou a integrar um tabuleiro global. Nesse contexto, o território corre o risco de ser tratado como zona de sacrifício, enquanto decisões são tomadas longe das comunidades diretamente impactadas.

Quem decide e quem paga o preço

A principal questão que se coloca é: quem decide sobre o território?

Enquanto empresas projetam lucros e governos reforçam a narrativa de crescimento econômico, os impactos tendem a recair sobre a população local. A riqueza extraída raramente permanece na região, mas os danos ambientais e sociais, esses sim, ficam.

Crédito: Chico Sales

Sem participação efetiva das comunidades, o que se repete é um modelo de desenvolvimento imposto, em que o direito ao território é subordinado à lógica da mineração.

Entre a exploração e a resistência

Diante desse cenário, cresce a necessidade de ampliar o debate público e fortalecer a organização popular. Reuniões, audiências e mobilizações têm buscado colocar em pauta não apenas os impactos da mineração, mas o direito das populações de decidir sobre seus próprios territórios.

Porque, no fim, a disputa pelas terras raras vai além dos minerais.Trata-se de decidir se o futuro da região será guiado pelos interesses do mercado ou pela vida de quem vive nela.

Promessas de futuro, impactos imediatos

“As chamadas ‘terras raras’, frequentemente apresentadas como minerais do futuro, vêm sendo utilizadas para sustentar uma narrativa de progresso ancorada no discurso da transição energética. Esse discurso coloca a exploração desses minerais como uma necessidade incontornável para superar as matrizes baseadas em combustíveis fósseis, como petróleo, gás e carvão. No entanto, por trás dessa ideia de sustentabilidade, o que se evidencia são interesses pouco comprometidos com uma transição energética justa e muito mais voltados à expansão do consumo energético exigido por tecnologias digitais, como data centers, e também por tecnologias de defesa, a exemplo de mísseis intercontinentais e submarinos autoguiados, que demandam grandes quantidades desses elementos.

Além disso, a chamada ‘mineração sustentável’ acaba por ocultar a continuidade de um modelo extrativo histórico, marcado pela concentração de riqueza, pela pressão sobre os territórios e por impactos sociais e ambientais duradouros”, afirma Nathália Francisco, militante do MAM.

A atividade minerária envolve riscos significativos, especialmente para os recursos hídricos e o equilíbrio ambiental. No Sul de Minas, essas preocupações se intensificam diante do histórico da mineração de urânio, que deixou marcas profundas nas comunidades locais, com passivos ambientais e riscos radioativos que permanecem décadas após o encerramento das atividades.

Nesse contexto, os novos projetos de exploração de terras raras avançam sobre territórios já historicamente impactados pela mineração. O Projeto Caldeira, da empresa australiana Meteoric, está previsto para ocorrer na Zona de Amortecimento da Área de Proteção Ambiental da Pedra Branca, próximo às estruturas da INB, onde estão armazenadas cerca de 12 milhões de toneladas de rejeito radioativo em processo de descomissionamento.

Já o Projeto Colossus, da empresa também australiana Viridis, prevê sua Área Diretamente Afetada (ADA) em um raio inferior a 1 km da Zona Sul de Poços de Caldas, região urbana consolidada onde vivem cerca de 60 mil pessoas. Áreas de cava, pilhas de rejeito e a Unidade de Tratamento de Minério estão projetadas a menos de 300 metros de moradias populares, a menos de 500 metros de um hospital de referência e a menos de 1 km de creches, escolas e centros de atendimento para idosos.

Mais do que projeções futuras, os impactos desses empreendimentos já atravessam o cotidiano das comunidades. O avanço dos projetos tem provocado medo, insegurança e adoecimento emocional entre moradores que convivem diariamente com a possibilidade da instalação da mineração próxima às suas casas.

Crédito: Chico Sales

“A nossa vida mudou completamente. A gente não olha mais para o bairro com tranquilidade, para a natureza, para as águas. Agora é preocupação o tempo todo. Tem gente adoecendo, com pressão alta, ansiedade, sem conseguir descansar, porque vive tentando entender o que pode acontecer com a nossa água, com a nossa saúde e com o nosso território. O mais cruel é sentir que somos tratados como rejeitos, como se 60 mil pessoas não importassem. Se hoje ainda existe alguma esperança, é porque teve um povo que decidiu lutar, deixar família, filhos e a própria vida de lado para defender essa terra.” Rose Miguel, moradora da Zona Sul de Poços de Caldas.

O relato evidencia que os impactos da mineração deixam de ser apenas uma ameaça futura e passam a atravessar, desde já, a vida emocional, social e coletiva das populações afetadas.

Audiência Pública sobre mineração de terras raras | Crédito: Larissa Rabelo Nunes

 

Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM)