Professores e militantes envoltos à mineração expõe a face cruel da mineração na região amazônica. O encontro teve como símbolo a Flor de Carajás.
O I Encontro de Professoras e Professores Pesquisadores Sobre o Problema Mineral na Amazônia, ocorrido entre os dias 25 a 27, em Belém, na Universidade Estadual do Pará (UEPA), demonstrou uma quantidade e qualidade expressiva de pesquisas sobre as questões nefastas geradas pela atividade mineradora na região amazônica.
Com o símbolo do encontro sendo a Flor de Carajás, conhecida pela sua resistência para sobreviver nas cangas abertas e arbustivas, ela possui um mecanismo de compensação demográfica para aumentar suas chances de sobrevivência. Nada mais propício e simbólico, para evidenciar a resistência e sobrevivência dos territórios afetados pela mineração.
Pelo método da transversalidade, 11 eixos foram organizados para debater criticamente a mineração em seus diversos aspectos de afetação. Eixo 1- agromineral e saúde, eixo 2- as lutas por justiça e reparação aos afetados da mineração, eixo 3- economia e território, eixo 4- geopolítica e transição energética, eixo 5- transformações do espaço extrativo, eixo 6- regulação e mineração, eixo 7- hegemonia e contra hegemonia nos territórios corporativos, eixo 8- mineração, mulheres e resistência, eixo 9- mineração, água, terra e território, eixo 10- mineração e povos indígenas, eixo 11- mineração e negritude.
Complementando, com mais cinco mesas, que mesclou a participação de militantes, povos da floresta e pesquisadores. A abertura do evento contou com tema: Desafios para a Organicidade entre Universidade e Movimentos Sociais – o MAM no Pará e nas Amazônias, seguida pela mesa que abordou A Questão Mineral no Pará e nas Amazônias: Desafios e Contradições, além da mesa, Entre Quilombos, Assentamentos e Territórios Tradicionais, A Resistência das Mulheres frente à Mineração. E por fim, Povos Indígenas, Territórios e Mineração – Dinâmicas de Expropriação e Conflito.
Para Charles Trocate, da direção nacional do MAM e um dos idealizadores do encontro, o saldo da atividade é bastante positivo e alentador frente à dinâmica da exploração mineral na Amazônia.
“A disputa pelo sentido é visceral, as mineradoras tentam convencer a sociedade a todo momento que produzem benesses para o conjunto da sociedade brasileira e amazônica, quando na verdade causa fissuras no metabolismo social dos territórios, socializa os prejuízos em plano nacional e os lucros em plano internacional, por isso essa atividade é extremamente importante para que a sociedade entenda o verdadeiro viés da atividade mineral”, pontua.
Entre pesquisadores, professores, estudantes e militantes advindos dos territórios indígenas, quilombolas, ribeirinhos e de assentamentos rurais foram aproximadamente 300 participantes que circularam pela atividade.
Doze livros foram lançados com as mais variadas temáticas conturbadoras, reflexivas e críticas geradas pelo problema mineral na Amazônia, além de outros assuntos correlacionados. Do mundo do trabalho a exploração aurífera, da resistência da educação do campo às desigualdades provocadas pela mineração nos territórios, são obras que demarcam o tempo mineral e suas contradições. Para obtê-las, basta acessar o link:(https://drive.google.com/drive/folders/1COBHEZyq7tdmJlawE7Bn1kZUNYWzNrKV)
Sandra Amorim, quilombola de Barcarena, que tem sofrido ameaças de morte nos últimos anos, por denunciar as afetações do complexo minerador de Barcarena exaltou o encontro.
“Esse encontro é importante para gente poder falar sobre nossa situação e ser um lugar de denúncia do caso de Barcarena, que tem vivido com a contaminação dos rios pelos metais pesados oriundos da mineração, com as várias mortes em decorrência do câncer na comunidade pela natureza contaminada, enquanto a mineradora oferece curso de ballet para comunidade”.
Ademais, um documentário, um curta metragem e um teaser foi exibido no encontro. Saques e Sacrifícios: Diretor Fabiano Bringel. A liberdade da Terra tem nome: Diretor Marcelo Cruz (https://youtu.be/NaDqG-VpY9Q) e o curta metragem: Vicinal à meia noite; diretor: Ícaro Matos.( https://www.youtube.com/watch?v=m8xMWaUHqRE)
Ainda, uma bela homenagem ao musico Rafael Lima, falecido em outubro de 2022, com o lançamento de disco póstumo Sinal Aberto, interpretado pela sua filha Ju Abe e pelo músico, Príamo Brandão.
No final do encontro foi lançada a Carta de Belém, onde os participantes do encontro afirmam o compromisso com uma pesquisa comprometida com os povos da floresta e soberania territorial e a criação de uma rede de pesquisadores da Amazônia. Veja quarta abaixo:
CARTA DE BELÉM-FLOR DE CARAJÁS
I Encontro de Professoras e Professores Pesquisadores sobre o problema mineral na Amazônia
Por uma Amazônia Livre do Extrativismo Predatório, pela Soberania Popular sobre o Subsolo e pela Defesa dos Territórios
Nós, professoras, professores, pesquisadoras, pesquisadores, estudantes, educadores populares, militantes, e integrantes de comunidades indígenas, quilombolas e camponesas nos reunimos nos dias 25 a 27 de junho de 2026, na Universidade do Estado do Pará (UEPA), Campus CCSE, Belém do Pará, para celebrar o I Encontro de Professoras e Professores Pesquisadores sobre o problema mineral na Amazônia na cidade de Belém do Pará, que acolheu 300 participantes.
O evento foi iniciativa do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Universidade do Estado do Pará – UEPA, a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA), a Universidade Federal do Pará (UFPA). Além de inúmeros parceiros para sua realização.
O problema mineral na Amazônia, ou melhor, nas diversas Amazônias, que surgiu dentro de um padrão de acumulação dependente, deve ser contextualizado num sistema econômico e político que está experimentando uma nova rodada de reestruturação e transformação baseada no aprofundamento da financeirização da economia no mundo, o que implica maior superexploração da natureza e da força de trabalho, mesmo quando o sistema capitalista está chegando nos seus limites ecológicos de reprodução sob o impacto da acumulação do capital global sem limites.
Estamos vivenciando uma crise de reprodução social: milhões de pessoas não podem sobreviver enquanto a desintegração social se expande. Regiões inteiras estão colapsando. Milhares de pessoas são deslocadas pelas mudanças extremas no clima, conflitos, guerras e perseguições. A desigualdade, o empobrecimento, e a insegurança para as classes populares, trabalhadoras, povos e comunidades tradicionais só crescem, depois de décadas sucessivas de crises fomentadas pelo neoliberalismo.
Por isso, reafirmamos nosso compromisso ético, científico e político com as lutas dos povos das Amazônias e denunciamos a intensificação do modelo mineral que transforma a floresta e seus habitantes em zonas permanentes de sacrifício.
Sob o discurso do desenvolvimento e, mais recentemente, da transição energética, num contexto geopolítico de concorrência agora focada sobre tudo entre os Estados Unidos e a China, aprofundam-se processos de expropriação dos territórios, destruição ambiental, violências, criminalizações das resistências e concentração da riqueza produzida pelo subsolo amazônico.
As Amazônias não são fronteira mineral como desejam os arautos do neoliberalismo. É um território de vida, diversidade biocultural e múltiplas formas de existência que precisam ser reconhecidas e efetivadas como fundamento de qualquer projeto democrático para o país.
O protagonismo das mulheres e dos povos da floresta
Reconhecemos que as mulheres, especialmente mulheres indígenas, quilombolas, ribeirinhas, camponesas e extrativistas, estão na linha de frente da defesa da vida, da água, da floresta, dos corpos e dos territórios. São elas que sustentam cotidianamente a re-existência dos povos diante das múltiplas violências impostas pela mineração.
Da mesma forma, afirmamos o protagonismo dos povos indígenas, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais como sujeitos políticos que produzem conhecimentos, defendem seus territórios e constroem alternativas concretas ao modelo neoextrativista no seu cotidiano. Suas cosmologias, formas de organização e práticas territoriais constituem caminhos para enfrentar a crise ecológica e civilizatória.
Sem seus territórios livres e protegidos, não haverá democracia, justiça climática e nem futuro para a Amazônia.
O compromisso da pesquisa militante
Reafirmamos que a universidade pública, os institutos de pesquisa e as escolas não podem permanecer neutros diante da destruição dos territórios.
Defendemos uma pesquisa comprometida, construída em diálogo permanente com os movimentos sociais, particularmente com o Movimento pela Soberania Popular na Mineração, o MAM, colocando o conhecimento científico a serviço da defesa da vida, da justiça socioambiental e da soberania popular.
Nossa produção acadêmica deve fortalecer as lutas concretas dos povos e contribuir para desmontar as narrativas que naturalizam a mineração como único caminho possível para o desenvolvimento amazônico.
Agenda política dos pesquisadores e pesquisadoras comprometidos com a luta pela Soberania Popular na Mineração
Como encaminhamento deste Encontro, assumimos a construção coletiva da seguinte agenda:
- Consolidar uma Rede Amazônica de Pesquisadores e Pesquisadoras sobre o Problema Mineral, articulada aos movimentos sociais, especialmente o MAM, e às universidades públicas.
- Produzir pesquisas voltadas aos conflitos minerários, às cadeias globais dos minerais estratégicos e aos impactos da transição energética sobre os territórios amazônicos.
- Fortalecer o protagonismo de mulheres, juventudes, povos indígenas e camponeses na produção de conhecimento, na incidência política e na luta por territórios livres de mineração;
- Apoiar processos de formação popular sobre mineração, direitos territoriais e justiça ambiental. Articulando a luta pela democratização da renda minerária (CFEM);
- Defender o combate efetivo à violência contra defensores e defensoras dos territórios. Contra a criminalização dos movimentos sociais, fortalecendo a luta pelo controle popular sobre a mineração;
- Produzir subsídios técnicos e científicos para fortalecer as lutas por reparação integral das afetações que esse modelo provoca na sociedade, na economia e na natureza. Isso pressupõe a defesa da soberania industrial mineral ampliando nossa capacidade de resolver os dilemas dos povos no Brasil;
- Defender o direito dos povos à consulta livre, prévia e informada, conforme a Convenção nº 169 da OIT. Reforçando nossa capacidade de negação aos grandes projetos minerais;
- Fortalecer o debate público sobre a soberania popular e a função social da terra e do subsolo, afirmando que os bens minerais devem servir ao interesse coletivo, e não à acumulação privada e à dependência do capital transnacional.
Nossos compromissos
Assumimos o compromisso de construir uma ciência comprometida com a transformação social, orientada pela justiça ambiental, pela ecologia política crítica, pelos feminismos populares, pelos saberes indígenas e tradicionais e pela defesa do acesso à terra e ao território.
Defendemos uma Amazônia onde a riqueza do subsolo não signifique pobreza na superfície; onde a mineração esteja subordinada aos direitos dos povos e aos limites ecológicos; e onde a democracia seja construída a partir dos territórios.
A luta pelo território é também a luta pelo subsolo.
Não haverá soberania nacional sem soberania popular sobre os bens minerais.
Não haverá transição energética justa enquanto a Amazônia continuar sendo tratada como almoxarifado do mundo.
Da universidade aos territórios, reafirmamos nosso compromisso com a vida, com a re-existência dos povos e com a construção de um projeto popular para a Amazônia e para o Brasil.
Nos comprometemos a organizar uma jornada nacional de lutas em 2027, que tem como lema a defesa dos bens naturais da sociedade e por um outro modelo de mineração, que também busca protestar contra os 30 anos da privatização da empresa Vale.
Em tempo, nos comprometemos a dar continuidade a essa nossa articulação realizando o II Encontro de Professoras e Professores Pesquisadores sobre o problema mineral na Amazônia em 2028.
Por uma pesquisa crítica e implicada com a luta cotidiana dos povos da Amazônia e do Brasil.
Lutar pelo Território, controlar o subsolo.
Agradecemos o apoio das seguintes entidades:
Grupo Acadêmico de Produção Territorial e Meio Ambiente na Amazônia (GAPTA)
Laboratório de contas regionais da Amazonia (LACAM)
Programa de Pós-graduação em Geografia (PPGG) do Centro de Ciências Sociais e Educação (CCSE) da UEPA
Grupo de Pesquisa Geografia dos Assentamentos na Área Rural (GEOGRAFAR) da Universidade Federal da Bahia
Grupo de Estudos Sociedade, Território e Resistências na Amazônia (GESTERRA da UFPA)
Grupo de Trabalho Fronteiras, Regionalização e Globalização do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (GT FRG CLACSO)
Sindicato dos Docentes da Universidade do Estado do Pará (SINDUEPA, Seção Sindical do Andes-SN na UEPA)
ANDES-SN
Amazon Watch
Forests and Finance
FIOCRUZ
Fundo Casa Socioambiental
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST-PARÁ)
Federação das Comunidades do PAE Lago Grande (FEAGLE)
GPTECA – Grupo de Pesquisa Territorialização Camponesa na Amazônia – GPTECA
Grupo de pesquisa Observatório de Direito Socioambiental e Direitos Humanos na Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas (ODSDH/UFAM)
Organização Indígena da Resistência Mura (OIRMA)
Organização das Mulheres indígenas Mura (OMIM)
Gepe: Ser&Lutas – Política Social, Lutas sociais e desafios para a intervenção do Serviço Social no campo e na cidade
Agradecemos, em especial, a UEPA pela acolhida nos dias de nosso evento.
Santa Maria de Belém do Grão Pará
27 de junho de 2026
Auditório Paulo Freire, Campus -CCSE
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