Estevão Musa e Luany Marques, Coletivo de Pesquisadores do MAM Minas Gerais
Nos últimos anos, o termo transição energética tem sido intensamente debatido e divulgado em diferentes meios: acadêmicos, políticos, sociais, midiáticos, entre outros. Em um contexto de crise climática, de modo geral, o identificam como uma mudança no padrão global de consumo energético para fontes de baixa emissão de carbono. Isto é, tornar-se menos dependente dos combustíveis fósseis, principais responsáveis pelo desequilíbrio metabólico planetário. Os grandes centros da economia mundial, principalmente China e Europa, apostam nos investimentos em novos ciclos tecnológicos relacionados à produção e armazenamento de energia solar e eólica, assim como na eletrificação de seu parque automotor.
Todavia, esse processo está permeado de inúmeros paradoxos. Dentre estes, em nome da transição energética, cresce a pressão sobre os territórios periféricos ricos em recursos minerais fundamentais na dinâmica atual da indústria de alta Coletivo de Pesquisadores do MAM Minas Gerais
Verifica-se assim, que mais do que uma questão simplesmente ambiental, estamos diante de um processo atravessado por dimensões geopolíticas e interesses hegemônicos com imensa capacidade de impactar as localidades de países como o Brasil. É inserida nessa conjuntura que a Sigma Lithium assumiu, em meados de 2014, às concessões para explorar minerais de lítio, no Vale do Jequitinhonha, no estado de Minas Gerais. À luz dessa breve introdução, pretende-se debater a seguir alguns aspectos contraditórios que envolvem a transição energética e sua demanda mineral, além de compreender o papel da Sigma nesse cenário.
1) Transição Energética?
Conforme apresentado linhas acima, na conjuntura atual a transição energética está relacionada aos movimentos em direção ao menor consumo de combustíveis fósseis como fonte energética, a fim de frear o avanço das mudanças climáticas em curso. De fato, de acordo com os dados do gráfico abaixo, o investimento global em energias renováveis teve um crescimento significativo. Aumentou de aproximadamente US$ 291 bilhões para US$ 728 bilhões, entre 2015 e 2024.
Gráfico 1 – Investimento Global em Energia Renovável, por País e Região, 2015–2024
Todavia, apesar de ser um montante considerável, ele ainda está muito aquém do que o momento atual exige, conforme destacado pela REN 21. Além de estarem concentrados majoritariamente em um único país, a China, responsável por 40% em 2024, existe ainda uma grande defasagem para atingir a meta de triplicar a produção de energia renovável da COP 28 até 2030. Trata-se de uma lacuna de investimento na ordem de US$ 772 bilhões, comparado ao valor empregado em 2024.
Apesar disso, é importante destacar que a participação das fontes renováveis no consumo global de energia cresceu de 9,9% para 13,5%, entre 2013 e 2023. Nesse período, o aumento da capacidade global de energia renovável estiveram concentrados nas energias solar fotovoltaica e eólica. Não obstante, o consumo absoluto de combustíveis fósseis se manteve crescente entre os anos de 2013 e 2023, expandindo 13%, e sua participação no consumo global energético teve um mínimo decréscimo registrado nesse período, de 80,9% para 79,5%, conforme apresentado no gráfico abaixo.
Gráfico 2 – Consumo Final Total de Energia por Fonte
Diante desses números, fica a pergunta: estamos mesmo caminhando em direção a uma transição energética, nos termos debatidos anteriormente? Embora nos últimos anos tenham crescido os investimentos e a participação das energias renováveis na cesta energética mundial, a demanda dos combustíveis fósseis continua sem apresentar queda, mantendo seu papel central nessa dinâmica. Sendo assim, alguns autores têm defendido a tese de que o que está em curso trata-se de uma “adição” energética e não uma “transição” [1]. Isto é, em um contexto de um contínuo crescimento de demanda de energia, o aumento da participação das fontes renováveis está se dando paralelamente ao consumo de combustíveis fósseis e não em sua substituição. De todo modo, para atender os vultosos investimentos nos ciclos tecnológicos vinculados às tecnologias de baixo carbono, a pressão pelo acesso aos minerais identificados como críticos e estratégicos nesse contexto tem sido enorme.
2) Minerais críticos e estratégicos?
Junto ao debate sobre transição energética, outro termo que tem ganhado destaque é o de minerais críticos ou estratégicos. Por si só, todavia, esses recursos não carregam essas características. Sua criticidade ou utilização estratégica são elementos extremamente variáveis que se modificam ao longo dos anos, devido, entre outros fatores, à sua localização geográfica, disponibilidade de reservas e viabilidade de exploração e, principalmente, à demanda para os ciclos tecnológicos vigentes. Sendo assim, os minerais críticos ou estratégicos variam de país para país, de acordo com suas políticas nacionais de desenvolvimento e a garantia de acesso aos recursos minerais necessários a elas.
Embora esses termos tenham ganhado maior notoriedade recentemente, o debate acerca deles remete ao menos ao início do século XX. Nos Estados Unidos, por exemplo, desde 1917, inúmeras listas de minerais críticos e estratégicos têm sido produzidas e atualizadas à luz de seus interesses industriais e de segurança. Se no período inicial não eram contabilizados uma dezena de recursos registrados, no último documento divulgado pelo United States Geological Survey (USGS), em 2025 eram 49 os minerais críticos.
Na União Europeia, entre 2011 e 2023, foram publicadas 5 listas de matérias-primas críticas. Em grande medida, esses materiais são identificados a partir da avaliação de sua importância econômica e do risco de fornecimento. Em 2011, estavam presentes na lista 14 minerais. Em 2023, eram 34.
No Brasil, encontra-se em tramitação um Projeto de Lei (PL 2780/2024) que propõe a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Sem uma definição objetiva, está entre os minerais estratégicos no texto, por exemplo, aqueles essenciais para a economia na geração de superávit da balança comercial do país. Soma-se a esse ponto, a promoção de incentivos fiscais e tributários e o apoio institucional aos licenciamentos ambientais dos projetos considerados estratégicos. De maneira geral, sob a justificativa da transição energética, o projeto pretende garantir as condições necessárias para acelerar a exploração mineral em território nacional, mantendo sua estrutura primária exportadora, a partir da atração de investimentos privados com suporte financeiro público. Verifica-se, portanto, como esses termos são mobilizados para atender a interesses nacionais, mas também como muitas vezes são utilizados para beneficiar determinados setores industriais.
Entretanto, atualmente, muitas dessas listas são justificadas pela grande demanda da indústria de baixo carbono. De fato, conforme destaca a International Energy Agency (IEA), minerais como cobre, lítio, níquel, manganês, cobalto, grafite, zinco e terras raras são extremamente demandados para produção de veículos elétricos e tecnologias de energia solar e eólica.
Um veículo elétrico, por exemplo, demanda seis vezes mais recursos minerais do que um automóvel convencional. Nos últimos anos, o lítio ganhou destaque por sua grande demanda vinculada à produção de baterias elétricas. Em meio ao aumento anual das vendas de veículos elétricos, conforme consta no gráfico abaixo, a demanda mundial de lítio, de acordo com a IEA, deverá aumentar de 101 kt em 2021 para 1.326 kt em 2040. Um aumento superior a 1000%, em um intervalo de 20 anos, motivado majoritariamente pela indústria de energia limpa.
Gráfico 3 – Venda global de veículos elétricos
Anunciado como a grande solução para a transição energética, a produção de veículos elétricos, todavia, tem apresentado uma grande pegada de carbono. De acordo com estudo produzido em parceria pela FGV e UNICAMP, a fabricação de carros elétricos emite uma quantidade até três vezes maior de gases de efeito estufa comparada à manufatura de veículos a combustão. A partir de uma avaliação do ciclo produtivo desde a extração de matéria-prima até o fim da manufatura na fábrica, foi concluído que a produção de um SUV a combustão gera, em média, 5.366 kg de CO2eq. A de um veículo elétrico do mesmo segmento emite 12.500 kg de CO2eq. Sendo assim, o SUV elétrico precisaria, por exemplo, percorrer 400 mil km para igualar as emissões de um veículo abastecido apenas por etanol. Isto é, somente a partir dessa quilometragem o veículo elétrico passaria a ter emissões acumuladas inferiores ao seu equivalente.
Desse modo, a proclamada inevitabilidade da expansão e abertura de novos projetos de mineração de lítio, sob a justificativa de promover uma economia de baixo carbono, fica em xeque. Além disso, neste ponto, é importante ressaltar que apesar de predominantemente ser destinada à indústria de energias limpas, o lítio também tem sido utilizado em sistemas de armazenamento de energia para veículos militares, drones e dispositivos de comunicação, que o coloca como elemento central da indústria bélica, assim como outros minerais denominados como críticos ou estratégicos no contexto atual [2].
Com a demanda crescente em setores industriais, como o energético e militar, fundamentais para a geopolítica mundial, a produção de lítio teve um crescimento expressivo nos últimos anos, conforme verifica-se no gráfico abaixo. Com um crescimento contínuo desde 2021, os principais parques produtores estão localizados na Austrália, responsável por 38% da produção mundial, China (21%), Chile (19%), Zimbabwe (10%), Argentina (8%), Brasil (4%) e Canadá (2%). Nesse setor, as principais mineradoras são: Albemarle, Sociedad Química y Minera de Chile, Ganfeng Lithium, Tianqi Lithium, Mineral Resources, Pilbara Minerals, Arcadium Lithium e Liontown Resources.
Gráfico 4 – Evolução da produção mundial de lítio
No Brasil, embora haja produção registrada desde 1995, é somente a partir de 2019 que seus números começam a ter um crescimento expressivo, saltando de 300 toneladas em 2018 para 12.000 em 2025. Todavia, o Brasil possui apenas 1% aproximadamente das reservas mundiais, que estão concentradas em: Chile (25%), Austrália (23%), China (12%), EUA (12%), Argentina (12%), Canadá (4%) e Zimbabwe (1%). É importante ressaltar, no entanto, que esses números são divulgados pelo USGS e muitas vezes seus métodos camuflam algumas informações, como em relação às reservas bolivianas não contabilizadas sob esse termo.
Conforme apresenta a Agência Nacional de Mineração (ANM), o lítio ocorre na estrutura de mais de 200 minerais e em distintos tipos de rochas, tais como precipitados salinos/evaporitos (Chile, Bolívia e Argentina), depósitos de argila (hectorite) de alteração de vidros/cinzas vulcânicas (EUA, México), pegmatitos graníticos (Brasil, Austrália, Zimbábue), dentre outras. No Brasil predominam os minerais espodumênio (LiAlSi2O6), lepidolita (K(Li,Al)3(Si,Al)4O10.(F,OH)2), ambligonita (Li,Na)Al(PO4)(F,OH)) e petalita (LiAlSi4O₁₀) presentes em pegmatitos. Ainda de acordo com a Agência, essas reservas estão localizadas, principalmente: na Província Pegmatítica Oriental: Vale do Jequitinhonha-MG (municípios de Araçuaí, Divisópolis, Itinga, Santa Maria do Suaçuí e São José da Safira) e São João Del Rey-MG; e Província Pegmatítica do Nordeste: região de Solonópolis-CE [7].
É nessa conjuntura que a Sigma Lithium assumirá as concessões para exploração de lítio, no Vale do Jequitinhonha, próximas aos municípios de Araçuai e Itinga, sendo a principal responsável pelo aumento da produção brasileira de lítio nos últimos anos, ao mesmo tempo em que intensifica os impactos socioambientais na região localizada no norte de Minas Gerais. É sobre esses aspectos que discutiremos a seguir.
3) A Sigma Lithium na Geopolítica mundial do lítio
Com origem registrada no Canadá em 2011, a Sigma Lithium Corporation é detentora integral da subsidiária brasileira Sigma Mineração S.A., responsável por 29 processos minerários ativos, localizados todos na região dos municípios de Araçuaí e Itinga, no norte do estado de Minas Gerais:
| TABELA 1 – PROCESSOS MINERÁRIOS ATIVOS – SIGMA MINERAÇÃO S.A. – EM MG | |||
| FASE | Nº | MINERAIS | |
| AUTORIZAÇÃO DE PESQUISA | 6 | RELACIONADAS AO LÍTIO | MINÉRIO DE LÍTIO |
| OUTROS MINERAIS | FELDSPATO; MINÉRIO DE OURO; QUARTZO | ||
| CONCESSÃO DE LAVRA | 20 | RELACIONADAS AO LÍTIO | AMBLIGONITA; ESPODUMÊNIO; LEPIDOLITA; MINÉRIO DE LÍTIO; PEGMATITO; PETALITA |
| OUTROS MINERAIS | BERILO; CASSITERITA; COLUMBITA; ESTANHO; FELDSPATO; POLUCITA; QUARTZO; TANTALITA | ||
| DIREITO DE REQUERER A LAVRA | 1 | RELACIONADAS AO LÍTIO | |
| OUTROS MINERAIS | TANTALITA-COLUMBITA | ||
| REQUERIMENTO DE LAVRA | 1 | RELACIONADAS AO LÍTIO | |
| OUTROS MINERAIS | QUARTZO; FELDSPATO | ||
| REQUERIMENTO DE PESQUISA | 1 | RELACIONADAS AO LÍTIO | MINÉRIO DE LÍTIO |
| OUTROS MINERAIS | |||
Fonte: SIGMINE
Como pode-se observar na tabela acima, o interesse da Sigma não está concentrado somente na exploração de lítio. Há também processos relacionados ao berilo, cassiterita, estanho, feldspato, minério de ouro, polucita, quartzo e tantalita-columbita. Considerando todos esses processos, a Sigma seria responsável por uma área de 18.227,86 ha, o equivalente a aproximadamente 25,5 mil campos de futebol oficiais. Na imagem abaixo, é possível visualizar suas distribuições geográficas.
Imagem 1 – Processos minerários ativos da SIGMA MINERAÇÃO S.A.
Apesar do interesse em outros minerais, o grande foco da Sigma concentra-se na produção e exportação de lítio. Atualmente, estão em atividade as minas do Projeto Grota do Cirilo, que segundo a mineradora, entre reservas provadas e prováveis, contém 2,434 milhões de toneladas de carbonato de lítio (Li₂CO₃), o que equivaleria a aproximadamente 6,5% das reservas mundiais [3].
Previsto para expandir até a fase três, quando terá a capacidade para produção anual de 770.000 toneladas de concentrado de lítio, com teor aproximado de 1,3%, o projeto encontra-se na fase 1, inaugurada em 2023. Em 2024, a produção total de concentrado de lítio atingiu 240.800 toneladas, exportados pelo porto de Vitória, tendo a China como principal destino. A fase 2, em processo de construção, prevê uma capacidade de produção anual de 520.000 toneladas de concentrado. Esta expansão será integralmente financiada por meio de um empréstimo, no valor de R$ 486,8 milhões, ofertado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com prazo de amortização de 16 anos e taxa de juros reduzida de 7,45% ao ano [3].
O empréstimo do BNDES não foi a única benesse pública recebida pela Sigma nos últimos anos. No final de 2024, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) aprovou para a mineradora um benefício fiscal correspondente a uma redução de 75% do imposto de renda. Nessa condição, de acordo com o Informe Anual divulgado pela Sigma, em 2025 foram pagos o total de R$ 10,9 milhões em impostos, sendo R$ 1,08 milhão municipais, R$ 2,3 milhões estaduais e 7,55 milhões federais. O documento relata também o pagamento de R$ 3,6 milhões de Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM).
À luz desses números, a Sigma se estabelece como a maior mineradora de lítio em atividade no Brasil. Outros projetos destacados pela ANM são liderados pela Companhia Brasileira de Lítio (CBL), com a mina subterrânea (Mina da Cachoeira), localizada também nos municípios de Itinga/Araçuaí-MG, e a AMG Mineração S.A (AMG), com a Mina Volta Grande, no município de Nazareno-MG. Todavia, no âmbito internacional, a Sigma ainda não se apresenta entre as maiores mineradoras do ramo desde o ponto de vista das reservas sob sua concessão, do montante produzido e nem em relação ao valor de mercado.
Além disso, em seu informe anual de 2025, a mineradora apresentou um capital de giro negativo de US$ 151,222 milhões e prejuízo líquido de US$ 50,185 milhões. Ou seja, embora a empresa tenha conseguido levar adiante a exploração de lítio desde que assumiu as concessões em meados de 2013 e 2014, ainda não se encontra estabilizada financeiramente, dependendo das benesses públicas do Estado brasileiro e extremamente refém da variação do preço internacional do lítio. Diante desse cenário, a cotação de suas ações, que já alcançou US$ 40,3 em junho de 2014, hoje encontra-se em queda, valendo atualmente US$ 14,8.
Do ponto de vista da região, os benefícios também não são garantidos. Além do baixo valor pagos em impostos e CFEM, conforme divulgado pela própria mineradora, em 31 de dezembro de 2024, a Companhia possuía apenas 589 funcionários atuando em diferentes localidades.
Em relação à sustentabilidade propagada pela empresa quanto à sua produção de “lítio verde”, é possível identificar também algumas incongruências. Através das imagens de satélite apresentadas abaixo, é possível visualizar a transformação territorial ocorrida na concessão de lavra 824.692/1971, onde estão as minas de lítio ativas do projeto Grota do Cirilo e autorizadas a exploração de ambligonita, espodumênio, feldspato e pegmatito. As imagens retratadas comparam a situação do território em maio de 2014, um mês antes da Sigma Lithium S.A. assumir a área que pertencia à Arqueana Empreendimentos E Participacoes S.A., com a condição mais recente disponibilizada por imagem de satélite daquele espaço.
Imagem 2 – Evolução do território referente à Concessão de Lavra 824.692/1971
O impacto que é observável nas imagens, ganha maior solidez quando analisado juntamente aos dados referentes ao desmatamento daquela área. Em um perímetro total de 756,21 ha, entre 2014 e 2024, foram desmatados 115,11 ha de vegetação nativa, conforme dados da plataforma Carboncal. A partir de informações disponibilizadas pela mesma instituição, é possível verificar que o território delimitado pela concessão foi transformado de um espaço de retenção de CO2eq em um espaço emissor.
Gráfico 5 – Balanço total entre remoção e emissão de CO2eq – Área da concessão 824.692/1971
Conforme consta no Gráfico 5, ainda sob administração da Arqueana em um período de baixa produção, aquele espaço se comportava como retentor de CO2eq. A partir do momento em que a Sigma assumiu a concessão e intensificou seu projeto de exploração de lítio, as contribuições ecológicas se inverteram, fazendo daquela área uma fonte relativamente significativa de emissão de CO2eq. Desse modo, a ideia de uma produção sustentável de “lítio verde” pela Sigma pode ser contestada. Além disso, esses dados corroboram a argumentação do estudo produzido pela FGV e UNICAMP, apresentado anteriormente, sobre a pegada de carbono no ciclo de produção dos veículos elétricos.
O que apresentamos em números aqui, as comunidades locais vivenciam no território, conforme veremos a seguir.
4) Colonialismo verde e os impactos socioambientais vivenciados nos territórios do Vale do Jequitinhonha
Violações de direitos humanos, aumento da poluição sonora, do ar e da água, conflitos fundiários, monopólio do uso da água, licenciamento ambiental irregular, ameaças a lideranças, assoreamento de rios, epidemia de doenças respiratórias e psicológicas, violência crescente especialmente contra as mulheres e pessoas racializadas, inflação, superlotação de equipamentos públicos de saúde e pouca incidência sobre a geração de empregos. Entre outros, esses são os custos socioambientais que têm sido impostos aos territórios e populações impactados pela atuação da Sigma.
“O Vale do Jequitinhonha está sendo transformado em uma zona de sacrifício”. As palavras de Djalma Gonçalves, liderança do povo indígena Aranã Caboclo, questionaram diretamente a narrativa “verde” construída pela mineradora, durante a Comissão de Participação Popular promovida pela Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais (ALMG), em 2024. Segundo seu relato, na comunidade de Piauí Poço-Dantas, após o início das atividades da Sigma Lithium, as casas estão danificadas com rachaduras, sempre cheias de poeiras, com moradores morrendo em decorrência de problemas respiratórios sem ter nenhum histórico do tipo. Após moradores confrontarem a mineradora, algumas casas tiveram canos de água cortados como forma de retaliação.
Sua crítica se estende à uma lógica executada há séculos no território, ao afirmar que essa expansão da extração minerária tem sido feita “para abastecer baterias de lítio que com certeza não serão usadas no Vale do Jequitinhonha, para um futuro que definitivamente não é o futuro das populações do Vale do Jequitinhonha”. Desde o século XVIII, as narrativas oficiais sobre a região exploram apenas suas vulnerabilidades, emplacando a necessidade do “progresso” e diagnosticando uma pretensa “tendência natural” ao extrativismo como remédio para suas supostas escassez. Nesse sentido, já foi palco da cata de diamantes e ouro, monocultura de algodão, café e eucaliptos, pecuária extensiva de gado zebu e mineração de granito. Sem exceção, todos esses ciclos começaram como promessas milagrosas de enriquecimento e prosperidade, no seu desenrolar exportam o que creem que o solo e o povo do Vale tem de melhor a oferecer, e terminaram deixando-o pior do que o encontraram.
Nota-se, portanto, que a extração de lítio reproduz e atualiza uma lógica colonial que coloca o território sempre à disposição do enriquecimento externo – num fluxo de riqueza em direção às regiões centrais do estado, depois do Brasil, até finalmente chegar às nações onde o valor é, de fato, agregado. A versão contemporânea desse modus operandi revela uma face obscura da geopolítica da transição energética: o colonialismo verde, que se utiliza de estruturas de opressão e dependência externa para extrair riquezas enquanto atropelam vidas, direitos e desconfiguram territórios. A atuação institucional da Sigma Lithium no território se insere em um cenário geopolítico global identificado por Lang, Bringel e Manahan (2023) [4] como Consenso da Descarbonização, marcado por narrativas de enfoque sistemático na descarbonização da matriz energética como frente única na luta contra o aquecimento global e as mudanças climáticas. Nesse sentido, a obrigatória substituição do uso de combustíveis fósseis por energias renováveis, definida por uma eletrificação e digitalização do consumo, não vem acompanhada de um questionamento da centralidade do crescimento econômico e da acumulação irrestrita de lucros.
Apesar das constantes ameaças e pressões, os moradores da região têm resistido ferozmente aos esforços de disrupção de suas identidades e seus territórios, com destaque especial à sua atuação na esfera jurídica e ferramentas de litígio climático. Posicionando-se globalmente pela justiça socioambiental, a Comunidade Quilombola Córrego Narciso do Meio, também do território do Jequitinhonha, lançou seu Protocolo de Consulta e Consentimento Livre e Informado, com base na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário. O documento define os processos de consulta livre, prévia, informada e de boa fé, em caso do estabelecimento de projetos e empreendimentos que afetem sua cultura e existência através do território. No protocolo, eles celebram:
Nós, a comunidade Quilombola Córrego Narciso do Meio, optamos por desenvolver a escrita do Protocolo de Consulta, ante a agravante conjuntura de ameaças e violações de direitos étnicos. Os povos e comunidades tradicionais têm identificado o dispositivo da consulta e consentimento livre, prévio e informado como um instrumento para garantia dos demais direitos coletivos fundamentais, sobretudo direitos territoriais e culturais (Aedas, 2025, para. 4). [5]
Os movimentos de resistência demonstram a expressão potente das comunidades que não se resignam em ser conhecidas e valorizadas – ou desvalorizadas – apenas em função do mineral que habita no subsolo de seus territórios, enfrentando o estabelecimento de novas fronteiras de acúmulo de capital por meio do extrativismo.
Reflexões finais
Em um contexto mundial extremamente complexo, com o avanço da crise climática, guerras militares e embates políticos e econômicos em curso, o debate sobre a transição energética e a demanda de minerais críticos e estratégicos têm ocupado um espaço central. Conforme discutimos ao longo do texto, as dimensões desses dois últimos processos são permeadas por questões geopolíticas e hegemônicas, para além do âmbito simplesmente ambiental. À luz dessa conjuntura, procuramos refletir sobre as contradições que envolvem a transição energética e a demanda mineral de seus ciclos tecnológicos, assim como apresentar o lugar da Sigma Lithium nesse cenário.
A partir dos dados apresentados anteriormente, é possível verificar que no atual momento, mais do que um processo de transição energética para recursos de baixa emissão de carbono, temos visto a adição crescente de fontes renováveis na cesta energética mundial concomitantemente à continuidade da demanda de combustíveis fósseis. Embora na última década tenham crescido os investimentos e fornecimento no setor de energia limpa, o consumo absoluto de combustíveis fósseis também aumentou e sua participação relativa na composição da cesta energética mundial se manteve praticamente estável.
Não obstante, verificamos também que em nome da tal transição, a exploração de determinados minerais, considerados críticos e estratégicos, muitos dos quais utilizados também pela indústria militar, tem sido pressionada para atender a demanda de seus ciclos tecnológicos. Neste âmbito, debatemos como essa definição dos recursos minerais são variáveis e atentas às realidades de cada país, além de muitas vezes ser instrumentalizada para a criação de arcabouços legais que favoreçam a abertura de novos projetos mineradores, como parece ser o caso do Brasil.
Mais do que isso, apresentamos como alguns dos ciclos tecnológicos vinculados às iniciativas de transição energética estão produzindo uma grande pegada de carbono. Destacamos, por exemplo, a produção dos veículos elétricos. A partir de estudo divulgado recentemente pela FGV e UNICAMP, foi identificado uma maior emissão de CO2eq em seu ciclo produtivo, quando comparado à fabricação de automóveis a combustão, exigindo do primeiro o percurso de uma grande quilometragem para a compensação desses valores.
Além disso, a própria produção de “lítio verde” propagandeado pela Sigma foi colocada em xeque. As imagens de satélite, por exemplo, evidenciam um grande impacto no território da concessão de lavra 824.692/1971, a partir do momento em que a área esteve sob responsabilidade da mineradora. Se as imagens deixam margem para diferentes interpretações, os dados disponibilizados pela Carboncal são contundentes. Desde o período em que a Sigma assumiu o controle daquele espaço, ele deixou de ser um lugar de retenção de CO2eq para ser transformado em um emissor de gases de efeito estufa, motivado pelo desmatamento da vegetação nativa que lá estava presente. Com essas características, a mineração sustentável que a Sigma diz exercer é extremamente questionável.
Não obstante, apesar de enfrentar dificuldades financeiras conforme descrito em seu informe anual, os processos minerários ativos em seu nome evidenciam que a mineradora tem procurado expandir seus projetos em andamento, abrir novas frentes de exploração – não só de lítio – e, por conseguinte, deverá buscar exercer um maior controle territorial em suas áreas de concessão. Para tanto, tem sido beneficiada com apoios financeiros públicos, tendo em vista o empréstimo garantido pelo BNDES com baixas taxas de juros e a isenção fiscal autorizada pela SUDENE.
Em contrapartida, os benefícios possíveis como a geração de emprego, por exemplo, a partir de seus projetos ainda tem sido ínfima, de acordo com dados divulgados pela própria empresa. Por outro lado, os impactos socioambientais vivenciados pelas comunidades locais presentes ao redor do Projeto Grota do Cirilo têm sido intensos. Apesar de inseridos em uma dinâmica de poder desfavorável, os habitantes do Vale do Jequitinhonha têm demonstrado sua resiliência e capacidade de organização coletiva pela reivindicação de seus direitos e modos de vida frente aos conflitos com a mineradora.
Diante desse cenário, se de fato o Estado brasileiro pretende refletir sobre seus minerais de maneira estratégica, garantindo benefícios para o país e para a população local, promover projetos com a lógica desempenhada pela Sigma, de extração destinada à exportação sem valor agregado, em um ritmo que atenda simplesmente aos interesses e necessidades financeiras da empresa, com ínfima arrecadação tributária e geração de empregos, além do significativo impacto socioambiental, definitivamente, não deveria ser o caminho a seguir.
Por fim, todavia, é importante ressaltar que o intuito do texto não foi criar uma linha argumentativa contrária à construção de uma alternativa distante dos combustíveis fósseis. Pelo contrário, a ideia central foi apontar algumas contradições que envolvem a complexidade da transição energética em curso, a fim de evidenciar que a maneira em que ela está posta dificilmente nos garantirá um reequilíbrio metabólico planetário, tendo em vista que uma de suas características principais está sendo o aprofundamento do extrativismo primário exportador em países periféricos como o Brasil.
NOTAS
[1] Ver, por exemplo: CATAI, Márcio & DUARTE, L. (2022). Território e Energia: crítica da transição energética. Revista da ANPEGE, v. 18, n. 36, p.764-791.[2] Ver mais em: MILANEZ, Bruno. Me chame pelo meu nome: a falácia dos “minerais estratégicos”. Disponível em: https://diplomatique.org.br/me-chame-pelo-meu-nome-a-falacia-dos-minerais-estrategicos/ Acesso: 15/06/2026
[3] Sigma Lithium Corporation. Annual Information Form For The Year Ended December 31, 2024.
[4] Lang, Miriam; Bringel, Breno e Manahan, Mary Ann. (2023). Introducción: Transiciones lucrativas, colonialismo verde y caminos hacia una justicia ecosocial transformadora. In Miriam Lang, Breno Bringel e Mary Ann Manahan (Eds.), Más allá del colonialismo verde: Justicia global y geopolítica de las transiciones ecosociales (pp. 15–44). Buenos Aires: CLACSO. https://doi.org/10.2307/j.ctv2hcs8c.
[5] Aedas. (2025, 10 de julho). No Vale do Jequitinhonha, Quilombo Córrego Narciso do Meio lança Protocolo de Consulta e Consentimento Livre em defesa de direitos frente à mineração de lítio. Araçuaí: Aedas. https://aedasmg.org/no-vale-do-jequitinhonha-quilombo-corrego-narciso-do-meio-lanca-protocolo-de-consulta-e-consentimento-livre-em-defesa-de-direitos-frente-a-mineracao-de-litio/
Movimento Pela Soberania Popular na Mineração










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