Por Henrique Silva – Coletivo estadual de comunicação do MAM/BA

Moradores das comunidades de Barra, Jabuticaba e Itapicuru, localizadas no município de Jacobina, no norte da Bahia, relataram na quarta-feira (04/03) fortes tremores de terra na região. Os abalos são associados às atividades da mineradora de origem canadense, Pan American Silver, que atua no território. 

De acordo com relatório técnico do Laboratório Sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LabSis/UFRN), os abalos sísmicos atingiram a zona rural de Jacobina, quando moradores das comunidades de Guabiraba, Itapicuru e do bairro Jacobina III relataram dois tremores de maior intensidade, que provocaram medo e apreensão entre a população local.

Rachadura na residência de morador de Jacobina /foto: Danos causados pelos tremores

Após os primeiros registros, outros tremores de diferentes magnitudes continuaram sendo detectados pelas estações sismológicas da UFRN. Ao todo, foram contabilizados 37 eventos sísmicos, sendo os mais intensos de 2,1 e 1,9 mE (Magnitude de Energia).

Os registros ocorreram nas proximidades da área onde os primeiros 17 abalos foram identificados, nas comunidades de Jabuticaba e Itapicuru.

Fonte: LabSis/UFRN

Os três abalos sísmicos mais fortes, vez foram registrados na madrugada, deixou os moradores das comunidades assustados e com medo do que pode vir acontecer com seus familiares e suas casas, já que as mesmas se encontram rachadas.

“Pra nós não é abalo sísmico, pra gente é consequência do desenvolvimento da mina, nós estamos em uma área de risco, a gente já procurou o ministério público, já sentou com a imprensa e ainda não tem respostas, precisamos de uma resposta urgente!” destacou uma moradora da região.

“Era por volta das três da manhã. Eu estava em meu barraco e acordei assustado com a detonação. Estremeceu tudo, eu pensei que a casa ia cair”

A região de Jacobina tem um histórico de mineração desde o período colonial e, desde a década de 1970, quando a mineração industrial passou a se expandir no território, as comunidades da região relatam enfrentar diversos problemas de ordem social, econômica e ambiental. Entre os impactos apontados estão a grande presença de poeira, decorrente das detonações realizadas nas minas, o aumento de doenças respiratórias, a contaminação de fontes de água, o desaparecimento de nascentes, a destruição de estradas vicinais e o barulho constante provocado pelas atividades mineradoras. Moradores também denunciam riscos à biodiversidade local, com ameaça de extinção de espécies de animais e plantas endêmicas da região.

Proximidade da barragem de rejeitos do complexo minerário com as comunidades de Barra, Jabuticaba e Itapicuru, no município de Jacobina (BA), situadas em sua área de influência direta e a jusante da estrutura, o que amplia a exposição das populações locais a riscos socioambientais associados à atividade minerária.

Pesquisa realizada por Amilton Oliveira e Márcio Rios (2013) aponta que a relação entre a população local e a empresa mineradora tem sido marcada por conflitos. Segundo o estudo, grande parte dos moradores associa os problemas ambientais observados no território à atuação da mineração, que expõe a saúde das comunidades vizinhas e também afeta a população da sede do município de Jacobina, que consome água proveniente da Barragem do Itapicuruzinho.

De acordo com relatos de moradores, antes da intensificação das atividades mineradoras a região era marcada pela abundância de nascentes, rios e cachoeiras, características próprias da região da Chapada Diamantina. As comunidades viviam principalmente da agricultura familiar, da criação de animais e da extração artesanal de ouro.

Rachadura na residência de morador de Jacobina /foto: Danos causados pelos tremores

 

“A empresa chegou fazendo pesquisa e com a promessa de desenvolvimento, comprando pequenas propriedades e depois se apossando das serras. Esse relato eu sempre ouvia da minha avó. Eu cresci escutando ela dizer que a empresa enganou todo mundo”, contou um morador da região.

Ao longo das últimas décadas, a expansão da mineração transformou profundamente o território. Comunidades tradicionais passaram a conviver com mudanças no uso da terra, na dinâmica econômica e na disponibilidade de recursos naturais, enquanto cresce a preocupação com os riscos ambientais e sociais associados às atividades mineradoras. Para moradores e movimentos sociais que acompanham a situação da região, os recentes tremores registrados nas comunidades reforçam um histórico de tensões e alertam para a necessidade de investigação independente sobre os impactos da mineração no território.

A mineradora não se posicionou a respeito dos eventos sísmicos

 

 

Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM)