Por: Rita de Kássia Ferreira

 

Nas últimas décadas, a Amazônia se encontra à frente de distintas racionalidades. De um lado, há uma frente econômica impulsionada pela tríade entre Mineração, agronegócio e o sistema financeiro, que tornam os territórios amazônicos verdadeiras zonas de sacrifícios, violentando corpos e territórios em nome de um desenvolvimento que nunca nos alcançou. O primeiro pilar, a mineração, especificamente, atrela-se a sistemas logísticos que destroem/destruíram a Amazônia há décadas por meio do seu circuito espacial de produção, exportação e consumo. Dentro dessa lógica, o município de Canaã dos Carajás abriga a maior mina de ferro a céu aberto do mundo, além dos trilhos que rasgam as ancestralidades presentes no entorno desses territórios.

O segundo pilar, o agronegócio, também fortalece essa lógica da concentração fundiária e compartilha com a mineração uma racionalidade orientada pela grande escala, pela monocultura e pela exportação. De acordo com os dados do IBGE[1], estima-se que, em 2023, cerca de 824.737 hectares no sudeste paraense tenham sido destinados ao cultivo de soja em grão, o que demonstra a expressiva expansão do agronegócio e das atividades de monocultura. Por fim, o sistema financeiro conecta-se aos grandes grupos empresariais ligados à produção de commodities minerais e agrícolas, que se beneficiam de linhas de crédito e investimentos oferecidos por bancos privados ou públicos como Itaú, Bradesco, Santander e o BNDES. Essas instituições operam como agentes fundamentais nessa financeirização dos territórios.

A territorialização do capital, representada por esses atores hegemônicos, reflete a dinâmica de acumulação e apropriação do capitalismo no campo. Na Amazônia, a manutenção dos grandes latifúndios sustenta-se nessa tríade, revelando um modelo baseado na concentração fundiária e na mercantilização dos bens comuns. Essa relação estabelece-se da seguinte forma: os grandes projetos de infraestrutura, ao reestruturarem o espaço, organizam e fortalecem o circuito espacial da mineração. Paralelamente, o agronegócio beneficia-se desse processo, especialmente nas áreas onde a mineração atua, o que demonstra uma articulação estratégica entre diferentes formas de apropriação e exploração do território.

Essa articulação estratégica entre os setores mineral e agropecuário na reestruturação territorial aprofunda a lógica da concentração fundiária e intensifica o processo de mercantilização da terra e dos recursos hídricos. Isto é muito simples de ser entendido. A mineração frequentemente atua como indutora de infraestrutura, logística e serviços. Esses serviços não somente viabilizam seus próprios empreendimentos, mas também estabelecem as condições materiais necessárias para a expansão do agronegócio. Assim, embora o setor agropecuário possua dinâmicas próprias de avanço sobre as fronteiras agrícolas, sua consolidação é significativamente facilitada pelos aportes estruturais originados pela mineração.

Sabendo que a mineração e o agronegócio operam de forma entrelaçada na destruição da Amazônia. Observa-se que, além da concentração fundiária, os rios da Amazônia tornam-se elementos de conquista para os grandes atores do capital. Onde corre a vida, nas mãos do mercado o veneno escorre. A mineração tem causado severos impactos ambientais, como exemplificado pelo projeto Onça-Puma, que atinge diariamente os cursos hídricos da região. O território dos Xikrin do Caeté, onde estão territorializados cerca de 1,7 mil indígenas, é banhado pelos rios Caeté e Itacaiuna e localiza-se no entorno dos empreendimentos da Vale voltados à exploração de níquel. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), que moveu uma ação contra a mineradora devido à alta contaminação por metais pesados, estima-se que 99,7% dos 720 indígenas analisados apresentaram níveis alarmantes dessa substância em seus organismos, sendo que 98,5% do grupo total foi  contaminado especificamente por níquel e metais pesados. (MPF, 2025). [2]

Para a Vale, a manutenção de uma imagem pública favorável é uma preocupação estratégica, visto que a hegemonia do mineral mundial é sustentada pelos lucros do minério de ferro, o qual  depende dessa estabilidade institucional. Diante dos seus históricos de desastre/crimes ambientais e dos conflitos com as comunidades afetadas, como nos casos de Mariana (2015) e Brumadinho (2019), a companhia enfrenta desafios significativos na reconstrução de sua imagem, reforçando a necessidade de agir sigilosamente. Por essa razão, a consideração dos danos socioambientais parece servir mais à gestão de danos e à mitigação de resistências do que a uma mudança real na lógica predatória de mercado.

O agronegócio, por sua vez, também avança sobre esses rios. A empresa Cargill, desde a década de 1990, com a instalação do porto graneleiro em Santarém, vem atravessando territórios indígenas. Segundo os dados do IBGE (2024), estima-se que, somente naquele ano, cerca de 120.900 hectares de áreas colhidas tenham sido destinados exclusivamente para a monocultura de soja.[3] Essa expansão se dá por diversas racionalidades (gado, madeira, pesca predatória, garimpo ilegal, entre outras), que, somadas com o agronegócio e à mineração, compõem a fronteira econômica contemporânea. Tal cenário complexifica as relações estabelecidas sobre esses rios e territórios, transformando-se em um ciclo vicioso de violência e devastação. Os rios Tapajós, Tocantins e Madeira torna-se protagonistas no processo de privatização das águas: assim como a mineração depende de fluxos logísticos para escoar a principal commodity brasileira, o agronegócio quer transformar os rios em extensões de suas engrenagens produtivas.

A alteração da paisagem amazônica, reconfigurada sob a lógica dos grandes projetos,  demonstra que a expansão do capital se consolida mediante a expropriação da vida do campesinato amazônico. Esse avanço espoliativo promove a substituição de modos de vidas tradicionais por projetos baseados na violência, o que intensifica os conflitos e subverte as dinâmicas agrárias em favor de lucros extraordinários obtidos através da comercialização da vida. Nesse cenário, os movimentos contra hegemônicos surgem como forma de resistência e ruptura  frente a essa lógica destrutiva. O saber ancestral, personificado pelo movimento índigena, construiu, acima de tudo, um grito de insurgência e esperança pela preservação dos territórios e rios, constantemente sufocados pelas racionalidades do capital.

Rita de Kássia Ferreira: é militante do MAM, escritora, professora, geógrafa e pesquisadora. Graduada e mestre em geografia pela Universidade do Estado do Pará (UEPA), membra do grupo de pesquisa mineração na Amazônia (GPMA-PPGG-UEPA), do grupo de pesquisa Territorialização camponesa na Amazônia (GPTECA-UEPA), ligada a Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio) Ambietal RP-G (S).

 

Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM)