Por Mayra Souza

O Dia Nacional da Visibilidade Trans marca um momento histórico de reconhecimento das existências trans e de enfrentamento às múltiplas formas de discriminação que atravessam essas vidas no Brasil. Criada a partir da campanha “Travesti e Respeito”, lançada em 2004, a data trouxe ao debate público, de forma inédita, a dignidade, o acesso à saúde e a garantia de direitos para pessoas trans e travestis. Duas décadas depois, essa agenda segue urgente e se articula diretamente com o debate sobre a crise climática, cujos impactos não se distribuem de forma equitativa, mas aprofundam desigualdades estruturais preexistentes.

Agravada por um modelo extrativista predatório, baseado na exploração intensiva da terra, da água e do subsolo, a crise climática acelera transformações profundas nos ecossistemas, nas economias locais e nas formas de vida, fazendo recair seus efeitos mais severos sobre populações historicamente empurradas às margens do reconhecimento de direitos, entre elas pessoas trans e travestis. Os debates sobre a crise climática também envolvem, de forma inseparável, justiça social, de gênero, território e diversidade. 

Os efeitos do colapso ambiental se entrelaçam com desigualdades estruturais antigas, aprofundando vulnerabilidades e violências. Garantir justiça climática exige reconhecer a pluralidade, incluindo mulheres cis, mulheres e homens trans e travestis, e enfrentar as discriminações que determinam quem sofre primeiro, quem sofre mais e quem permanece invisibilizada diante das políticas de resposta, adaptação e reparação.

Para muitas cidades, a ideia de crise pode soar recente. Para corpos e corpas historicamente excluídos do acesso pleno a direitos sociais, da proteção do Estado e das políticas públicas, nem a crise nem os extremos são novidade. O que hoje se apresenta como emergência climática já era vivido, há décadas, como permanência da violência cotidiana. A transfobia ambiental descreve a forma como pessoas trans e travestis são afetadas de maneira desproporcional por desastres ambientais, mudanças climáticas e pelas próprias políticas de resposta às emergências. Trata-se de um padrão de exclusão atravessado por gênero, raça e território. Em situações de calamidade, mulheres trans e travestis enfrentam barreiras específicas, como dificuldade de acesso a abrigos, desrespeito ao nome social e à identidade de gênero, violência em espaços coletivos, interrupção de tratamentos hormonais, ausência de atendimento de saúde adequado e respostas institucionais despreparadas para acolhê-las com dignidade. (Referência: cartilha “Justiça Climática, Diversidade e Justiça de Gênero Proteção e Pertencimento”, Ministério das Mulheres e ANTRA. JustiaClimticaDiversidadeeJustiadeGneroProteoePertencimentoTravestiseMulheresTransemTemposdeMudanasClimticas.pdf)

A mineração atravessa diretamente as existências LGBTQIA+ nos territórios, nas relações de trabalho e nos modos de vida. A presença de atividades extrativistas altera profundamente a estrutura social das comunidades, intensificando conflitos internos, precarizando a saúde coletiva, ampliando desigualdades e reproduzindo violências, desde a negação de direitos até a discriminação institucional e a exclusão social, tornando a violência cotidiana algo naturalizado.

Desastres como enchentes, queimadas e deslizamentos não recaem sobre todas da mesma maneira. Eles incidem com maior força sobre quem já enfrenta insegurança alimentar e habitacional, informalidade no trabalho e ausência de proteção social. Esses eventos não são acidentes isolados, mas expressões extremas de um processo contínuo de exploração predatória dos territórios e crimes em que empresas mineradoras são responsáveis. Em situações de calamidade, espaços de acolhimento que deveriam cumprir papel central na proteção dos direitos humanos frequentemente se tornam locais de violação, humilhação e medo. Muitas pessoas trans são obrigadas a permanecer em ambientes que desrespeitam sua identidade de gênero ou deixam de buscar ajuda por receio da violência institucional.

A lógica do colapso social nos territórios explorados

A noção de justiça climática parte de um princípio simples, mas frequentemente ignorado: não basta falar em “salvar o planeta” de forma abstrata, é preciso olhar para quem está mais exposto aos danos ambientais e sociais. No Brasil, isso significa reconhecer que os impactos do modelo extrativista, marcado pela mineração, pelo agro-hidro-minerio-negócio e pela concentração de terras e recursos, recaem de forma desproporcional sobre populações negras, pobres, periféricas e sobre a população LGBTI+, tanto nos centros urbanos quanto nos territórios rurais e tradicionais. Ainda assim, esses grupos raramente participam dos espaços onde se decide o futuro dos territórios.

Nesse cenário, não é possível discutir desmatamento, contaminação de rios e avanço da mineração sem falar da violência contra pessoas defensoras de direitos humanos e lideranças LGBTI+ nos territórios afetados. Tampouco faz sentido celebrar discursos de “economia verde” enquanto comunidades seguem sem acesso à água potável, saneamento, energia, moradia e trabalho digno, como se algumas vidas fossem consideradas descartáveis em nome do progresso. De acordo com Bru Pereira, diretora executiva do VoteLGBT, os debates climáticos promovidos por governos e empresas, frequentemente apresentados por meio de siglas e termos técnicos, tendem a parecer distantes da vida cotidiana. Nesse sentido, a dirigente destaca que “a agenda climática decide questões muito concretas, como se uma casa será reassentada ou não, se o transporte público vai melhorar ou se a população continuará presa a longos trajetos poluídos, e se os bairros terão árvores, drenagem e equipamentos públicos ou seguirão sendo tratados como zonas de sacrifício. Todas essas decisões impactam diretamente as possibilidades de bem-viver das comunidades LGBTI+”.

Os processos associados ao modelo extrativista predatório produzem calamidades de forma gradual e sistemática. Antes que os eventos climáticos extremos se manifestem, instala-se um colapso social silencioso. A estrutura de exploração é violenta desde a base e opera pela exclusão das corpas dissidentes. Pessoas que já são segregadas no cotidiano comunitário também são as primeiras a serem ignoradas quando se trata de acesso a políticas públicas, medidas de reparação ou proteção institucional.

Quando o colapso ambiental se explicita, essas existências já se encontram socialmente rompidas. O que desmorona primeiro não são apenas barragens, encostas ou rios, mas as condições mínimas de dignidade, pertencimento e sobrevivência. O colapso social dessas vidas é anterior aos extremos físicos e ambientais.

Entrevista com Sofia Lima, Bixa, travesti e não binária, ativista social e moradora de Barão de Cocais (MG)

É nesse contexto que as consequências do modelo extrativista se materializam nas trajetórias individuais e coletivas, como revela a experiência de Sofia Lima, ativista social, mulher trans e moradora de Barão de Cocais, município marcado pela mineração e pelo medo constante do rompimento de barragens. Sua trajetória revela como o modelo extrativista predatório atravessa corpos, territórios e subjetividades.

Ao falar sobre a relação entre território extrativista e corpas trans, Sofia afirma que a travestilidade não pode ser vivida de forma individual. “A travestilidade não é uma transição possível de ser realizada sozinha. Ela precisa ser coletiva, sustentada por políticas públicas sérias”, explica. Segundo ela, em territórios marcados pela mineração, essa vivência se transforma em dor permanente. “Quando a corpa trans também é ecológica e política, o sofrimento se intensifica. Barão de Cocais é uma terra marcada pela lama invisível e pelo terror das barragens. Isso tudo faz parte de um sistema que nos mata antes mesmo do desastre acontecer.”

No campo da empregabilidade, Sofia relata que pessoas trans são sistematicamente afastadas do mercado formal de trabalho no município. “Barão de Cocais afasta pessoas trans dos empregos formais. A mineração empobrece o solo e empobrece a vida. O que sobra são subempregos, aumento do custo de vida e concentração de renda.” Ela também questiona o discurso de inclusão promovido pelas empresas mineradoras. “Esse verniz de inclusão que as mineradoras propagam é uma grande mentira. Os dados estão aí, mas a nossa vivência já prova isso todos os dias.”

A saúde pública é outro eixo central de violência institucional. Sofia conta que sofreu transfobia repetidas vezes durante os atendimentos no SUS. “Eu sofri transfobia inúmeras vezes dentro da saúde pública da cidade. Isso me adoeceu, mas também me moveu.” Como resposta, ela passou a integrar o Conselho Municipal de Saúde, onde apresentou um projeto de capacitação para o atendimento de pessoas dissidentes de gênero. “O projeto foi aprovado por unanimidade pelo conselho, mas nunca saiu do papel. Eu acredito que isso acontece porque ele escancara uma ferida social que ninguém quer olhar.”

Na educação, a exclusão se mostra ainda mais evidente. Sofia destaca que o acesso ao ensino superior é praticamente negado às travestis no município. “Em uma cidade com cerca de 33 mil habitantes, apenas duas travestis conseguiram concluir o ensino superior. Isso não é coincidência. É um projeto de exclusão.”

Para Sofia, o terror das barragens não se limita ao risco físico de rompimento. “O medo não é só da lama. É o medo constante de não existir para o Estado, de não ser reconhecida como sujeito de direitos, nem mesmo em situações de emergência.” Ela ressalta que, nos processos de evacuação e acolhimento, pessoas trans enfrentaram discriminação, dificuldade de acesso a abrigos compatíveis com sua identidade de gênero e ausência de qualquer forma de compensação ou reparação até hoje.

“Antes da lama, já existia a exclusão. Antes do colapso ambiental, já existia o colapso social. O desastre só escancara aquilo que sempre foi tratado como descartável”, conclui.

Colocar a pauta LGBT no centro do debate climático não significa apenas incluir uma sigla em documentos oficiais, mas transformar a forma como políticas públicas são pensadas e implementadas. Isso envolve reconhecer que abrigos emergenciais em enchentes, rompimentos de barragens ou eventos extremos precisam ser espaços seguros para pessoas LGBTI+, com equipes capacitadas, protocolos de prevenção à violência e respeito à identidade de gênero. Envolve também incluir a diversidade sexual e de gênero nas pesquisas sobre vulnerabilidade socioambiental e garantir que programas de transição energética e alternativas ao modelo mineral-extrativista gerem formação, trabalho e renda para quem hoje é empurrado à informalidade, especialmente pessoas trans e travestis, historicamente excluídas do mercado de trabalho formal.

 

Movimento pela Soberania Popular na Mineração